| Canonização do Beato Nuno Álvares Pereira de Santa Maria
Quando recebi o convite, por parte do Padre Provincial, Frei Felisberto, para representar nossa Província em Roma na canonização do Beato Nuno, confesso-lhes que fiquei um pouco surpreso e preocupado. Surpreso, porque é uma honra levar o nome da nossa Província e, com isso, uma parte de cada um de nós. Depois, a preocupação devido à minha agenda. Pensei nos casamentos, retiros que tinha para pregar, encontros de pastorais. Porém, percebi a mão do nosso Deus. Ele foi arrumando tudo. Confiei essa missão nas mãos do Senhor. Ele foi me apresentando padres, adiando datas etc. Tudo isso para mim foi confirmado numa tarde. Quando já estava confirmada minha ida para Roma, resolvi arrumar minha cela dar aquela senhora faxina. Tenho uma pequena caixa, em que há tempo não mexia. Quando fui aspirante na cidade de Itu, havia um frade com o nome de frei Agostinho, que viera falecer naquele período. O superior da época deu-nos licença para entrarmos na cela dele e vermos se queríamos algo do falecido. Ele tinha uma caixinha cheia de relíquias de santos carmelitas. Peguei algumas para mim. Muitas dei para sacerdotes e guardei apenas duas para mim. Para minha surpresa, peguei uma sem querer e quando me dei conta, era a relíquia do Beato Nuno. Isso para mim foi uma confirmação que realmente deveria ir à sua canonização e louvar o bom Deus por termos mais um farol da nossa Ordem nos altares da Igreja.
Como carmelita, vejo que tudo o que fazemos sozinhos mofa e não gera frutos. Pois bem, resolvi organizar uma comitiva para me acompanhar e também representar o laicato brasileiro. Foram comigo oito leigos da nossa paróquia de Santa Teresa. A resposta foi imediata. Em poucas horas, a comitiva estava formada.
Partimos no dia 24 de abril pela tarde. Fizemos uma parada em Portugal. Aproveitamos para visitar a Igreja de Santo Antonio, lugar onde nasceu o grande santo de Portugal. Queria muito levar a comitiva nas ruínas do convento construído e onde viveu o Santo Nuno. Porém, fica longe do aeroporto e com isso perderíamos o vôo para Roma. Mas, mesmo assim, ficamos imensamente gratos ao bom Deus por pisar nas terras onde esse santo carmelita viveu e se santificou. Ainda no aeroporto de Lisboa, tivemos uma experiência muito agradável. Quando passamos os portões para embarcar, tivemos que esperar um pouco. No portão de embarque, encontramos várias pessoas, que estavam indo para a canonização. Mas quero destacar uma senhora que muito me chamou a atenção. Só sinto por não me lembrar do nome dela... De longe, já a tinha avistado. Quando me aproximei, ela me ofereceu um lugar para sentar. Dali brotou uma boa conversa que, no final, reunia muitas pessoas em torno de nós. Ela, praticamente, deu-nos uma aula sobre o Beato Nuno. Falava com tanto ardor, que parecia tê-lo conhecido pessoalmente. Realmente é uma senhora encantadora. Ela nos disse que mora em Fátima e é muito amiga dos carmelitas.
Pois bem, continuemos nossa ida a Roma. Lá chegamos às 18h30. Fomos direto para o Hotel “Domus Carmelitana”. Depois que nos instalamos, resolvi levar a comitiva para a Praça de São Pedro. Para nossa surpresa, ao sairmos do Domus, vinha em nossa direção um batalhão de Capa Branca. Eram vários frades carmelitas, que vinham em procissão da Igreja Transpontina. Lá, tinha acontecido uma adoração. E, no meio desta procissão, estava o Padre Geral, frei Fernando Millan. Fiquei imensamente feliz em vê-lo e percebi que tal sentimento era recíproco. Ele, muito fraternalmente, saudou cada membro da comitiva, dando-nos boas vindas na Cidade Eterna. Depois deste encontro, fomos para o Colégio Santo Alberto. Encontramos com o frei Roméro e alguns frades. Lá, recebi um presente de Deus: um convite para distribuir o Santíssimo corpo de Jesus junto ao Santo Padre. Quem me conhece, deve imaginar como fiquei. Depois disto, jantamos e retornamos para Domus.
Chegou o grande dia 26. Levantamos bem cedo, tomamos nosso café e pelas 08h30 já estávamos nos dirigindo para a Praça de São Pedro. Que caminhada linda até lá! Que coisa linda ver, de um lado e do outro, frades caminhando pelas ruas de Roma. Todos com capa branca. Lá, fiz a experiência da unidade da nossa ordem. Foi lindo!
Quando cheguei no Vaticano, fui direto para a capela do Santíssimo Sacramento. Lá, os presbíteros que iriam distribuir a comunhão tiveram toda orientação. Cheguei às 09hs e saí às 10hs para o presbitério. O Santo Padre veio pela praça no papa móvel. E deu início à cerimônia.
Quanto à cerimônia, foi tudo muito solene. Os hinos e as partes da missa foram celebrados em Latim. Juntamente com o beato Nuno, foram canonizados mais quatro beatos: Arcângelo Tadini (1846-1912), Bernardo Tolomei (1272-1348), Geltrude Comensoli (1847-1903), Caterina Volpicelli (1839-1894) e o nosso Nuno Álvares Pereira (1360-1431). Como é forte para nós, Carmelitas, ver um dos nossos nos altares da Igreja de Roma. Amante da nossa Regra de Vida, filho querido de Maria e zeloso pelos pobres!!! No primeiro momento da cerimônia, houve a narração dos processos dos santos. Depois, o Santo Padre declara cada um santo de Deus. Estavam presentes os provinciais das ordens e congregações das quais fizeram parte os santos canonizados naquele momento. Quem foi aos pés do Santo Padre saúda-lo e pedir sua benção, foi o provincial de Portugal. Como me emocionei ao vê-lo de hábito e capa branca, beijando as mãos do Pontífice. É benção para todos nós carmelitas. Confesso-lhes que, naquele momento, pedi uma graça especial para cada membro da nossa província. Tanto da Ordem Primeira, Segunda e Terceira e todas as nossas paróquias. Depois deste momento, as relíquias foram depositadas num lugar à parte do presbitério. E a cerimônia continuou encantadoramente.
Quero ressaltar alguns pontos da homilia do Santo Padre com relação ao novo santo carmelita: o Papa realçou o amor que o santo carmelita teve para com Maria. Vestindo o hábito de Maria e professando nossa regra de vida, viveu com ardor até o ultimo dia de sua vida. E o Papa reforçou: tal hábito o envolvera na hora de sua morte. Construiu um convento carmelita, onde viveu intensamente a nossa regra de vida. O amor aos pobres foi uma marca singular da sua vivência cristã e carmelita. Distribuiu seus bens em beneficio dos pequenos, que batiam não só às portas do convento, mas, também, iam atrás deles.
Sim, o Santo Nuno Álvares Pereira de Santa Maria tem muito que oferecer aos nossos jovens carmelitas de hoje. Na cerimônia, após a homilia do Santo Padre, veio-me à mente: um homem rico, poderoso e cheio de Deus, que largou tudo de bom neste mundo e entregou sua vida nesta Ordem de Maria é porque ele viu nesta ordem homens de Deus. Comunidades de Deus!!! Comunidades fervorosas!!! Sentiu que valeria largar tudo e buscar viver, no Carmelo, o Evangelho!!! O Carmelo foi, para ele, terra fértil que favoreceu sua busca do absoluto. Terra, que iria ajudá-lo a configurar sua vida à vida do Cristo.
Enfim, essa experiência de representar nossa província, enriqueceu-me muito. Tenho certeza que não só a mim, mas a toda comitiva. Joaquim, Lidia, Inês, Helena, Carlos César, Jean, César (português) e Fernando, muito obrigado pela presença calorosa, amiga e terna que vocês foram naquela semana.
Aproveito esse momento para agradecer ao padre provincial, frei Felisberto, e ao seu conselho, que me confiaram tal missão. Fiz o máximo de mim para representar, com dignidade, nossa Província de Santo Elias e o nosso Brasil.
Tenham minha benção,
Frei Rothmans, O.Carm Pároco |